domingo, 15 de janeiro de 2012

Tolerância vs Aquiescência



Segundo o conceito, tolerância é a disposição de admitir, nos outros, modos de pensar, de agir e de sentir diferentes dos nossos.
Por definição, a tolerância pressupõe que o tolerado é algo com que não se concorda. Uma guerra semântica, contudo, tem se travado nos mais diversos meios sociais no sentido de transmudar o sentido da palavra tolerância, para convertê-la em verdadeira aquiescência.
Por guerra semântica se entenda o esforço organizado no sentido de mudar a relação dos signos (ex: a palavra tolerância) com aquilo que eles significam. Aquiescência, por sua vez, apresenta significado oposto ao de tolerância. Segundo o conceito, aquiescência é concordância, consentimento, adesão, aprovação, anuência.
É neste contexto, de guerra semântica, que se encontra a questão da homofobia.  Um heterossexual, por definição, é aquele que sente aversão sexual ao indivíduo do mesmo sexo, ou seja, um heterossexual nunca se sentirá atraído sexualmente por uma pessoa do mesmo sexo, ainda que, racionalmente, não tenha objeção a que outras pessoas sejam homossexuais. Partindo deste conceito, é perfeitamente razoável que heterossexuais desaprovem ou não simpatizem com o comportamento homossexual.
Contudo, é notório que o simples direito racional ou íntimo (gosto, consciência ou crença) de não aprovar ou simpatizar com o comportamento homossexual, é taxado, em meio à guerra semântica, de termos que, pelo seu uso, automaticamente associamos com coisas reprováveis, tais como: discriminação e preconceito.
Discriminação, por exemplo, pode ser justa ou injusta. Ao aplicar uma prova, o professor discrimina os alunos que tiraram notas altas daqueles que tiraram notas baixas. Aqueles são aprovados. Estes são reprovados. Ao escolher o futuro cônjuge, as pessoas geralmente fazem uma discriminação rigorosa, baseadas em diversos critérios: qualidades morais, inteligência, aparência física, timbre de voz, formação religiosa etc. Entre centenas ou milhares de candidatos, somente um é escolhido. Os outros são discriminados. Ao selecionar seus empregados, as empresas fazem uma série de exigências, que podem incluir: escolaridade, experiência profissional, conhecimentos específicos, capacidade de relacionar-se com o público etc. Todas essas formas de discriminação são justas, razoáveis e necessárias.
Seria uma discriminação injusta, por exemplo, não contratar determinada pessoa, devidamente qualificada para o cargo, simplesmente por causa de sua cor, pois é uma discriminação sem critério justo. Por outro lado, seria razoável discriminar pela cor um ator que retratará Machado de Assis. Uma vez que o escritor era mulato, é razoável que seja retratado por um ator de mesma cor, e não por um ator branco (como fez a Caixa Econômica Federal em um comercial veiculado na TV, onde Machado de Assis era retratado por um homem branco – “http://www.youtube.com/watch?v=10P8fZ5I1Wk”).
O termo preconceito também padece da mesma deturpação. Um preconceito, em princípio, não é bom ou mau, pois ainda não se tornou um valor consolidado. Um preconceito pode se confirmar como certo, ou se confirmar como errado. É da natureza humana produzir preconceitos, que são defesas contra o desconhecido. Uma pessoa pode ter determinado preconceito quanto à determinada comida, que não conhece, ou possui aparência desagradável. É razoável o preconceito de um recepcionista de hotel em relação a certa pessoa trajada inapropriadamente para o local, pois, segundo o que comumente acontece, tal pessoa pode ser um pedinte, e importunar os hóspedes. Assim, o preconceito é como uma intuição, baseada na percepção que uma pessoa tem da realidade. Apenas quando a percepção da realidade destoa radicalmente do racional é que um preconceito pode ser entendido como uma coisa perniciosa. Se no exemplo do recepcionista de hotel, a pessoa trajada inapropriadamente é um hóspede, o preconceito mostrou-se errado, mas possuía alguma base para existir. O preconceito recomenda a cautela, e não que as pessoas se privem de plano dos mesmos, sob pena de serem presas fáceis de várias circunstâncias da vida.
A guerra semântica relacionada à homofobia tenta converter o conceito de tolerância em aquiescência, forçando a sociedade não apenas a tolerar o comportamento homossexual, mas a aprová-lo, tal como se fosse um comportamento de todo indivíduo. É natural que a maior parte da sociedade não goste da ideia, por exemplo, do beijo gay na televisão, pois sendo a maior parte da sociedade heterossexual, possui natural aversão a tal comportamento (ainda que sem objeções de cunho moral ou religioso). Se um heterossexual deixa de sentir aversão numa manifestação homossexual, tornou-se psicologicamente aberto a abraçar o referido comportamento, o que indica que, se a homossexualidade não é apenas uma questão comportamental (de valores), o comportamento ainda é aspecto deveras importante, pois pessoas não nascidas homossexuais (ad argumentandum tantum) poderiam, mudando seus valores e conceitos, abraçar a prática homossexual. São os valores, por sinal, que impedem as práticas incestuosas de filho com mãe, de pai com filha, pois embora um homem seja atraído sexualmente por uma mulher, e vice-versa, os valores impedem a prática incestuosa, e são capazes de criar verdadeira e insuperável aversão.
Na verdade, a maioria das pessoas intui que o comportamento homossexual não é positivo para elas, seja por questões da própria natureza, seja por meio de valores ainda plasmados na sociedade, mesmo que não tenham refletido profundamente sobre o assunto, razão pela qual há todo um esforço contrário no sentido de transmudar o significado das palavras, de forma a impedir que pessoas expressem o que realmente sentem ou pensam acerca da prática homossexual. É razoável que pessoas, hipoteticamente nascidas homossexuais, tenham aversão sexual à prática heterossexual? É a lógica que explica que ambos os comportamentos (homossexual e heterossexual), elevados à níveis críticos, são auto-excludentes, pois todos os homossexuais nasceram de uma relação (ao menos biológica) heterossexual. Quando uma pessoa tem aversão sexual à prática heterossexual, tem aversão ao modelo/padrão que a colocou no mundo.
Sendo a prática heterossexual não apenas natural, mas necessária, o esforço semântico ideológico no sentido de eliminar a aversão à prática homossexual fatalmente teria como resultado o fim da heterossexualidade como modelo ideologicamente defensável, para dar espaço à bissexualidade, comportamento que coloca a reprodução da espécie num segundo plano, atrás dos desejos sexuais, e não em mesmo plano, como ocorrem nas relações heterossexuais, em que sexo e reprodução caminham juntos. Assim, mesmo que um casal (homem e mulher) opte por não ter filhos, é apenas dentro deste modelo (heterossexual) que poderá ser gerado vida, reprodução da espécie, razão pela qual não se pode reprovar o modelo heterossexual, diferentemente do modelo homossexual (tomando-se como referência a continuidade da espécie). O modelo bissexual, embora aparentemente elimine os conflitos entre homossexualidade e heterossexualidade, pressuporia a ausência de qualquer aversão sexual, seja pelo mesmo sexo, seja pelo oposto, ao passo que a continuidade da humanidade dependeria, irremediavelmente, das relações heterossexuais, mesmo que todos os seres humanos fossem bissexuais.
Assim, o esforço para eliminar a aversão ao modelo homossexual resulta em destruir o único modelo realmente necessário para a continuidade da espécie humana, que é o heterossexual, que sobreviveria apenas residualmente na forma de bissexualidade. Com heterossexuais "convertidos" em bissexuais, a aprovação do comportamento puramente homossexual (e não bissexual) estaria assegurada de forma reflexa, uma vez que nem mesmo os que sentem aversão sexual pelo sexo oposto podem negar que, sem relações heterossexuais, a humanidade não existiria.
Na verdade, um mundo de bissexuais nunca será uma realidade, e os idealizadores da guerra semântica sabem disso. A guerra semântica não pretende converter heterossexuais em bissexuais, mas amordaçar heterossexuais, com o que se chama de linguagem "politicamente correta", de forma a não possuírem palavras (pois estas serão proibidas) para expressar quaisquer sentimentos íntimos ou racionais contrários à prática homossexual. Proibir a aversão sexual ao comportamento homossexual é reprimir, por via oblíqua, o direito de ser heterossexual, é subverter o conceito de tolerância em verdadeira intolerância.




sábado, 25 de junho de 2011

Crônica do Sinal Divino


Se és filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães. (Mateus 4.3)
Uma geração má e adultera pede um sinal; mas nenhum sinal lhe será dado, senão o do profeta Jonas (Mateus 12.39)
Sem dúvida, citar-me-eis este provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo; tudo o que ouvimos ter-se dado em Cafarnaum, faze-o também aqui na tua terra. (Lucas 4.23)
Na verdade vos digo que muitas viúvas havia em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou por três anos e seis meses, reinando grande fome em toda a terra; e a nenhuma delas foi Elias enviado, senão a uma viúva de Sarepta de Sidom. (Lucas 4.25-26)
Havia também muitos leprosos em Israel nos dias do profeta Eliseu, e nenhum deles foi purificado, senão Naamã, o siro. (Lucas 4.27)
Bem aventurado vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus. (Lucas 6.20)
Bem aventurados vós, os que agora tendes fome, porque sereis fartos. (Lucas 6.21)
Bem-aventurados, porém, os vossos olhos, porque vêem; e os vossos ouvidos, porque ouvem. (Mateus 13.16)
Graças te dou, ó Pai, Senhor do Céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. (Lucas 10.21)
Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela), porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela (Mateus 7.13-14)
Mestre, queremos ver de tua parte algum sinal. (Mateus 12.38)
Ouvireis com os ouvidos e de nenhum modo entendereis; vereis com os olhos e de nenhum modo percebereis. Porque o coração deste povo está endurecido, de mau grado ouviram com os ouvidos e fecharam os olhos; (Mateus 13.15)
Haveis de procurar-me e não me achareis; (João 7.34)
Para onde eu vou vós não podeis ir. (João 8.22)
Em verdade vos digo que a esta geração não se lhe dará sinal algum. (Marcos 8.12)
Onde está o teu tesouro, ai estará também o teu coração (Mateus 6.21)
Ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação. (Lucas 6.24)
Ai de vós, os que estais agora fartos! Porque vireis a ter fome. (Lucas 6.25)
Quão dificilmente entrarão no Reino de Deus os que têm riquezas. (Lucas 18.24)
Quem acha a sua vida perdê-la-á, quem, todavia, perde a vida por minha causa achá-la-á. (Mateus 10.26)
Se alguém quer ser o primeiro, será o último e servo de todos. (Marcos 9.18)
Sendo assim, quem pode ser salvo? (Mateus 19.25)
Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível. (Mateus 19.26)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

À maneira de Caim



A história de Caim e Abel é conhecida. Caim era o primogênito filho de Adão e Eva, e irmão mais velho de Abel. Caim dedicou-se a lavrar a terra, e Abel tornou-se pastor de ovelhas. Certo dia, Caim resolveu fazer uma oferenda a Deus, do fruto da terra que lavrara. Abel também ofertou ao Senhor Deus, mas um novilho, das primícias de seu rebanho, um sacrifício de gordura em holocausto. Deus se agradou da oferta de Abel, mas não atentou para a oferta de Caim.
Muito se discute a razão de Deus ter rejeitado a oferta de Caim. O texto sacro não afirma que Caim foi displicente, nem que ofereceu coisa de qualidade inferior ao que tinha condições de ofertar. Tudo o que se sabe é que Deus rejeitou a oferta de Caim.
Após isso Caim se irou mui profundamente, descaindo-lhe o semblante. Era o retrato dos sentimentos carnais à flor da pele, um misto de ira e decepção. Caim certamente estava decepcionado porque imaginava que Deus se agradaria de sua oferta, pois suas intenções eram boas. Caim desejava agradar a Deus, mas a forma escolhida aparentemente não agradou ao Senhor, e suas boas intenções ainda foram ofuscadas pela oferta aprazível de Abel a Deus. A inveja, o despeito e a ira possuíram o coração de Caim, de forma que não mais pôde se dominar, e assassinou seu irmão Abel.  
Em virtude do texto sacro não deixar explícito a razão pela qual Deus rejeitou a oferta de Caim, o famoso escritor português José Saramago, refletindo certamente o pensamento de muitos outros, disse, em deboche, ser Deus o responsável pelo primeiro homicídio na face da terra, ao desprezar a oferta de Caim. Tal pensamento é o retrato do sentimento de revolta contra a vontade soberana de Deus. De Caim surge uma geração de seres humanos separados da presença de Deus.
Ao que parece, para tais pessoas, Deus não teria sido “gentil e educado”. Deus deveria ter aceitado a oferta de Caim para não desapontá-lo, evitando o desencadear do que veio a ser o primeiro homicídio. De fato, é a constatação que fazemos de uma pessoa que recebe um presente e diz não ter gostado para a pessoa que o presenteou. A verdade nua e crua poderia ser evitada não apenas por uma questão de etiqueta, mas para não gerar mágoas e feridas desnecessárias. Afinal, será que valeria a pena ferir os sentimentos de alguém que apenas quis agradar?
Contudo, nem sempre a etiqueta que se poderia estar exigindo de Deus no caso de Caim e Abel é aplicável em todas as situações de nossas vidas. É inevitável, por exemplo, que uma mulher resolva não atentar para as gentilezas de um pretendente quando este, por alguma razão pessoal, não lhe agrada. Caso ela dê atenção demasiada, por gentileza ou educação, estará criando falsas esperanças no rapaz. Em determinado momento ela terá que dizer que não tem interesse nele, e embora seu desejo não seja o de ferir seus sentimentos, a geração de uma mágoa talvez seja inevitável. Igualmente acontece na relação entre patrão e cozinheiro. Por mais que um cozinheiro tenha se esforçado e utilizado de seus melhores dons para preparar um alimento saboroso para seu patrão, isso não necessariamente garantirá a satisfação do patrão, que, por preferências pessoais, ou seja, alheias ao esforço e ao trabalho do cozinheiro, pode não vir a gostar.  E se o patrão, que deseja comer apenas aquilo que lhe seja aprazível, não revelar a verdade ao cozinheiro, comerá a contragosto, sem prejuízo do salário que terá que pagar ao cozinheiro, que não tem culpa por não conhecer as preferências do patrão.
Todo esse dilema entre a “intenção de agradar” e o “ter agradado” ilustra perfeitamente o pensamento humano acerca das religiões. A maioria das pessoas acredita na existência de um Deus, mas em tempos de uma apregoada Nova Era, é politicamente incorreto se afirmar que Deus se revelou decisivamente em Jesus. O relativismo religioso aparenta ser tolerante, mas será que possui alguma chance de ser verdadeiro?
Um exemplo; É por uma obviedade lógica que, se existe reencarnação, o homem não morre apenas uma só vez, sobrevindo após isso o juízo (Hebreus 9.27). Ou pessoas sem Deus irão para o inferno, ou seus espíritos serão aperfeiçoados em processos de reencarnação. Não há como tais coisas serem simultaneamente verdadeiras. As religiões contrastam entre si em seus dogmas e é impossível que todas sejam simultaneamente verdadeiras. Por saberem disso, alguns dos movimentos “New Age” apregoam caminhos espirituais individuais, onde cada um escolhe o seu caminho, abraçando aquilo que julga ser a verdade em cada religião que encontra.  Parece psicologicamente mais fácil aceitar que o importante não são os meios de se alcançar a Deus, mas a intenção. Todo aquele que tem intenção genuína de agradar a Deus, independentemente da forma, alcançará a atenção de Deus. Mas será que isso realmente procede?
No Evangelho de João, capítulo terceiro, Jesus Cristo faz diversas afirmações audaciosas (João 3.16-21): Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más. Porque todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus. Em João, capítulo 14.6 Jesus diz: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.
Como se vê, Jesus Cristo, sem meias palavras, afirma categoricamente que apenas por ele, e por meio dele, é possível agradar a Deus. Fica subentendido também que antes dele, todos os homens, bons e maus, estavam em trevas. As trevas simbolizam a ignorância a respeito de Deus. Contudo, mesmo em trevas há aqueles que amam a verdade, e outros que não amam a verdade. Desta forma, aquele que ama a verdade, mesmo que ande em trevas, ao ver a luz – que é a verdade – se achega para ela, enquanto aquele que não ama a verdade, ao ver a luz, aborrece-se da mesma, e se afasta dela. Jesus Cristo é, assim, a fundamentação de uma sentença (de condenação ou salvação) que já existia antes da manifestação da própria luz. Em outras palavras, mesmo num mundo de trevas, há aqueles que amam a verdade, e aqueles que não amam a verdade. Quem não ama a verdade já está condenado, mas sua condenação apenas é manifesta em Jesus Cristo. Desta forma, não é pré-requisito para a salvação conhecer a luz, mas amá-la. Assim foram salvos todos os heróis da fé no antigo testamento, ou seja, anteriores ao próprio Cristo. Embora não conhecessem a luz, já a amavam. E nisso se consolidava a fé daqueles homens, pois criam em algo que ainda não tinham sequer visto. É o que a Bíblia assevera em Hebreus 11.1: Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem. Aqueles homens, pela fé, já entendiam o que Abel havia entendido, mas que Caim não entendeu. Aqueles homens entenderam que o pecado faz separação entre Deus e o homem, e que quando Deus, ainda assim, não condena o homem, está na verdade sacrificando a si mesmo, ou seja, abrindo mão de si mesmo para o bem do homem. Não apenas isso! Aqueles homens entendiam que Deus, assim, retribuía o mal com o bem, o ruim, com o que existia de melhor.  Por isso a oferta de Abel agradou a Deus, pois ela possuía toda a essência do amor de Deus. Já a oferta de Caim, por melhor que fosse sua intenção, era destituída de profundidade e de maior significado. Deus, ao não atentar para oferta de Caim, deu ao mesmo a grande oportunidade de realmente agradar a Deus (Genesis 4.7-a: “Se bem fizeres, não é certo que serás aceito?”).
A reação de Caim é idêntica a do religioso hodierno ao se deparar com a verdade, que apenas é encontrada em Jesus Cristo. Uma vez que conhece a verdade, aborrece-se dela e cria despeito pela mesma. Assim como Caim alimentou ira por Abel, o religioso hodierno alimenta ira contra a igreja (anunciadora da verdade), criando a sua própria verdade. Ele, uma vez conhecendo a verdade, não se achega para a mesma, pois a verdade denuncia suas más obras, e seu pecado não confesso. Esta pessoa, assim, afasta-se da luz, rumo a densas trevas, onde se anestesiará psicologicamente em busca de um efeito tranqüilizante para sua mente. O pecado, por sua vez, pode ser como o de Caim, que tinha a boa intenção de agradar a Deus, intenção que, todavia, ao se deparar com a verdade, mostra-se falha, assim como a própria oferta. Desta forma, a idéia de agradar a si mesmo torna-se superior a vontade original, que era de agradar a Deus, e nisto temos o orgulho e a soberba, que, uma vez manifestos, desmascaram as intenções veladas do coração.  Se o desejo de Caim fosse puramente o de agradar a Deus, não teria se inflado de ódio, mas procedido, na imediata oportunidade, da maneira correta. Quando o homem se coloca acima do próprio Deus, seus caminhos não o levarão ao coração de Deus, mas ao seu próprio coração.
Por fim, poderia restar o queixume de que Caim se tornara lavrador, e não pastor de ovelhas, o que lhe teria privado de sensibilidade para entender como melhor agradar a Deus. Mas assim também foi para com toda a humanidade, pois Deus escolheu um povo para se revelar, mas por meio de Cristo Jesus estendeu a oportunidade para todos os povos. Não se trata de demérito ao ofício de Caim, mas sim em reconhecer que a oferta de Abel representava melhor o coração de Deus. Assim, mesmo lavrador, Caim tinha no seu irmão Abel o espelho para poder agradar a Deus. Hoje, mesmo quem não nasceu num lugar onde predomine a fé Cristã, ao conhecê-la, tem a oportunidade de se pautar por ela. E isto não é se privar de valores culturais íntimos e indisponíveis, mas um ajustamento destes valores culturais aos valores divinos, que transcendem qualquer língua, povo, nação ou cultura. Somente o orgulho tolo faz o homem desprezar o valor divino por valores terrenos. Quanto àqueles que não conheceram a verdade, ou seja, nunca viram efetivamente a luz, que é Jesus Cristo, Deus é sabedor de todas as coisas, e sabe quem são aqueles que, mesmo em trevas, amam a verdade, e aqueles que não amam a verdade. A luz mostra como as coisas realmente são.
Nas palavras de Simeão ditas a Maria: Eis que este menino (Jesus Cristo) está destinado tanto para ruína como para levantamento de muitos em Israel e para ser alvo de contradição (Lucas 2.34).  


terça-feira, 3 de agosto de 2010

Intangibilidade Divina


Uma coisa tangível é algo que pode ser tocado, tratado como um fato, como algo concreto. Com o advento do materialismo filosófico, muitas questões ontológicas passaram a ser consideradas sem sentido, uma vez que só o tangível seria real. Uma coisa absolutamente intangível para o homem, segundo a ótica materialista, seria inexistente. É como o sentido da vida. Para um materialista, o sentido da vida é ela mesma, a vida não veio a existir sob um propósito, sua existência é que determina seu propósito. Contudo, se a vida veio a existir sem um propósito, e o seu fim é a morte, concluímos que seu único sentido absoluto é o fim. Em outras palavras, o propósito da existência é não existir, o sentido de viver é morrer.
A idéia de um propósito, entretanto, nos remete a uma idéia de algo anterior a existência, sendo, portanto, algo pré-existente. E quem seria capaz de dar propósito a existência senão o ser pré-existente (Deus)? A existência, assim, seria elemento meramente contingente que dependeria necessariamente de um propósito, que é intangível no plano da existência, só podendo ser aferido no plano da pré-existência.
Imaginemos um pintor e sua pintura. Num quadro, ele cria alguns personagens e cria também o cenário onde os personagens estarão envolvidos. Admitamos, apenas como hipótese ilustrativa, que tais personagens possam realmente interagir com o cenário e entre eles mesmos (como num sofisticado software de computador com inteligência). Para tais personagens, apenas o cenário e eles mesmos são coisas tangíveis. Eles estão alheios, concretamente, à figura do pintor. O pintor, enquanto ser pré-existente à pintura, é intangível aos personagens. Pela ótica do materialismo filosófico, o pintor não existiria de forma alguma, pois estaria fora do que é tangível aos personagens. Para os personagens, o pintor não pode ser visto nem tocado, logo, acreditar em sua existência seria algo irracional. Seria irracional porque, para os personagens, somente é real o que está inserido no cenário. Fica fácil ver, através da ilustração, a magnitude do engano da visão materialista.
O erro se torna ainda maior porque o pintor, estando além do plano da pintura, está também presente nela na forma de consciência, ou seja, a pintura é idéia/concepção/idealização do pintor. É a abstração que ganhou elementos de concretude. Na pintura são aferíveis alguns elementos do pintor, podendo ela revelar desde traços de sua personalidade até finalidades e propósitos de coisas e eventos circunscritos no plano da pintura, desejados pela imaginação e poder criativo do pintor.
Fica claro na ilustração que o pintor corresponde a Deus, a pintura corresponde à humanidade e o cenário seria o universo material. O absurdo do ateísmo, alicerçado em suas bases filosóficas materialistas, ignora o conceito da ilustração, atribuindo ao contingente (a pintura) as características do necessário e pré-existente. O ateísmo é a última forma de idolatria, pois atribui aos homens e a matéria as características de Deus. Segundo essa visão, o universo é o pré-existente e sua lógica adveio de uma combinação do acaso. Em última análise, os atributos divinos impossíveis de serem atribuídos ao próprio universo são atribuídos ao “deus acaso”. Não é muito diferente dos primitivos cultos a imagens de escultura, ao sol ou a lua (abominados por Deus por confundir criador e sua criação). É apenas mais sofisticado. Na esteira do materialismo filosófico, a ideia de divindade, base do surgimento de todas as civilizações conhecidas até hoje, seria, na verdade, fruto da imaginação do homem, ou seja, o homem novamente atribuindo os atributos de Deus ao contingente, no caso, à sua própria imaginação.
Tal visão é irônica, pois nos faz presumir que caso um dia o homem acumule toda ciência contida de forma difusa e desorganizada no universo, este homem personificaria exatamente a figura que conhecemos como Deus, no que se refere ao atributo da onisciência. Caso este homem, em posse de toda ciência, pudesse manipulá-la, de forma a criar galáxias, matéria e vida, este homem personificaria exatamente a figura que conhecemos como Deus, no que se refere ao atributo onipotência. Difícil mesmo seria conceber que tal homem fosse onipresente, visto ser um ser material. O homem, mesmo adquirindo todo poder e conhecimento, ainda seria uma imagem deficiente de Deus, com bastante semelhança, mas não idêntica a do ser necessário que é Deus. Por isso Deus é o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, pois se partirmos rumo ao início de tudo, lá estará ele, e se partirmos com destino ao último nível de evolução possível, lá estará Deus. Deus independe da criação para ser o que é, mas a criação depende de Deus para ser o que é.
A ciência evoluirá ao ponto do homem descobrir como driblar a morte? A ciência evoluirá ao ponto do homem trazer pessoas que já morreram de volta a vida? Se um dia tais coisas forem possíveis, o homem ainda será apenas uma figura caquética do Deus todo poderoso. Isso lembra a lenda de Buda e o macaco Son Goku. Se Son Goku conseguisse ir além dos domínios do poder de Buda, receberia o domínio do céu. Son Goku então voa até muito longe e pousa numa montanha, deixando nela a sua marca, acreditando já estar muito longe dos domínios de Buda.  Buda então mostrou um dos seus dedos que estava com a marca deixada por Son Goku. A montanha nada mais era que um dos dedos da mão de Buda.
Fugir de Deus é como a ilusão do macaco Son Goku. No fim da fuga (morte do universo), o homem fatalmente se deparará com o criador. Tudo que tem um início tem necessariamente um fim.

domingo, 20 de junho de 2010

Leis Espirituais e a Natureza de Deus




O universo é composto de leis que determinam como as coisas que conhecemos são. A lei é, na verdade, uma abstração de uma condição existente para que algo seja de uma determinada maneira. Abstraímos, por exemplo, que para termos o que conhecemos como água, deve-se haver determinada composição de hidrogênio com oxigênio. Não se adquire água com moléculas de carbono, por exemplo. A lei, por isso, é uma mera abstração de algo que foi observado como um padrão. Lei, como se quer definir neste texto, é nada mais que um padrão. As leis, por sua vez, determinam comportamentos no tempo e no espaço, de forma que, caso uma variável de um padrão determinado pela lei seja alterada, haverá alguma conseqüência sobre o comportamento predeterminado pela lei no tempo e no espaço. Um exemplo de fácil visualização é a flora e a fauna. Se uma floresta é devastada, houve uma mudança no padrão do ecossistema, e a conseqüência natural é que os animais que dependiam da floresta irão morrer, ou irá haver superpopulação de algumas espécies (mosquitos, por exemplo) devido o desaparecimento de outras (sapos e camaleões, por exemplo). Essa nova variável altera o padrão preexistente, instaurando outro padrão. Pela Lei da Gravidade, sabemos que há uma enorme diferença entre pular um degrau de escada e entre pular de um edifício sem pára-quedas. A existência de leis pressupõe respeito a seus ditames, caso se queira manter os padrões que elas determinam. Toda lei pressupõe um dever-ser, que é aferido na lógica de um padrão, cujo desrespeito impõe uma conseqüência, que estabelece um novo padrão, um novo equilíbrio. O indivíduo que ignora as leis da física e salta de um edifício sem pára-quedas, rumo ao chão firme, não pode esperar sair incólume. Sairá, certamente, muito ferido ou morto, porque o corpo não suporta tamanho impacto. Se não fosse dessa forma, os homens seriam como os astronautas no espaço: nada do que conhecemos existiria, não fosse uma lei da física que nos faz ter os pés firmes no chão, bem como impede, por conseqüência lógica, que um homem salte de um edifício sem pára-quedas rumo ao chão, e saia ileso. As próprias leis humanas seguem a mesma lógica. Ao homicida a lei impõe determinada pena, com o fim de não se distanciar do padrão de dever-ser que foi alterado pelo crime, estabelecendo novamente um equilíbrio próximo do anterior ao alterado. Isso ocorre porque concebemos como padrão que a vida humana deve ser preservada. Não houvesse uma lei determinando punição ao homicida, qualquer um poderia matar quem quisesse. Não haveria ordem, haveria caos, e no caos nada pode existir. O universo que conhecemos, portanto, é composto de leis, que estabelecem uma ordem, dentre as quais existem as leis espirituais.
As leis espirituais estão intimamente ligadas com a natureza de Deus, que não pode ser arbitrário consigo mesmo. Embora Deus seja onipotente, ele não age fora de sua própria natureza, ou seja, ele não muda. Deus possui uma natureza e seu modo de ser é conforme sua própria natureza. Um dos elementos mais notáveis da natureza de Deus é que ele é vida. Deus é o ser não criado, que existe sem ter origem, pois é a própria origem de todas as coisas. Em Deus, e por meio de Deus, todas as coisas vieram a existir. A existência da vida depende de Deus e fora de Deus não há vida. Ou seja, não existe possibilidade de haver vida fora da Vida, fora de sua matriz, que é Deus. Seria ilógico e arbitrário, para não dizer impossível.
Assim como há vida material, há vida espiritual. Deus nos fez a sua imagem e semelhança e colocou em nós a eternidade, sem que nós pudéssemos descobrir a obra que Deus fez desde o princípio até o fim (Eclesiastes 3.11). É a eternidade que nos diferencia de todos os outros seres vivos. O homem é dotado de responsabilidade moral, suas capacidades singulares apenas existem porque Deus fez o homem diferente dos demais seres, fez o homem com um elo perpétuo com seu criador. O homem não é fruto do acaso, pois caso fosse, seria, no máximo, como um animal qualquer, e não teria os atributos que possui. O homem não é o mero topo de uma evolução, alguém que se descobriu sozinho no universo, um ser vivo qualquer cuja única finalidade absoluta de existir é um dia morrer, e ser como se nunca tivesse sido. Sem Deus, a existência do homem seria sem sentido absoluto, a vida seria uma mera passagem, onde o homem resolve lhe dar algum sentido relativo, pois enquanto sentido absoluto sabe que seu destino final é a morte. De nada valeria o amor, o altruísmo e o sacrifício pelo próximo. Afinal, assim como a vida, tudo terminaria e seria como se nunca tivesse sido, logo, tudo seria em vão. Conceber o homem sem Deus não é apenas de um pessimismo fatalista, mas ilógico e incompatível com a natureza humana. Uma falha na leitura sobre a vida, um conceito ilógico sobre a mesma. Seria o mesmo que concebêssemos a existência da lei da gravidade onde pular de um edifício sem pára-quedas fosse o mesmo que pular de um degrau de escada. Isso, em absoluto, não faz sentido. São coisas mutuamente contraditórias. E nesse sentido, o Apóstolo Paulo avalia o homem que nega a Deus como indesculpável, visto que a própria natureza testifica sobre Deus (Romanos 1.20).
Deus colocou em nós a eternidade, mas apesar disso, a vida depende de Deus, pois apenas Nele é que há a concretização do elo (Deus e o homem) preexistente. Deus é como a árvore da vida, nela brotam ramos de vida, mas não se concebe que a vida possa brotar fora de sua respectiva árvore. A vida não pode brotar ao léu, de forma avulsa e independente. Como um ramo da árvore da vida, ela apenas pode brotar na árvore da vida. Desta forma, assim como há vida, cujo conceito impõe um termo final, que é a morte, há vida eterna, cujo conceito não impõe qualquer termo final, pois é eterna, que por sua vez impõe o conceito de morte eterna, que é a separação perpétua de Deus, pois Deus é a Vida em sentido absoluto.
A morte eterna só existe para aqueles que possuem em si a eternidade, sendo este o caso do ser humano. Em virtude da eternidade presente no homem, a existência da morte eterna é lógica e pressupõe, necessariamente, a existência da vida eterna, assim como a existência da vida pressupõe a existência da morte. E a morte eterna, a separação perpétua de Deus, é o que conhecemos como inferno. Ninguém pode afirmar como é, literalmente, o inferno, mas talvez tudo que se tenha descrito sobre o inferno seja uma alegoria de uma situação espiritual muito além da compreensão. Analisando logicamente, o inferno parece ser uma condição espiritual de vazio eterno, de sede insaciável (não à toa Cristo disse ser a água da vida), de desejos ardentes mundanos (o fogo) que nunca mais poderão ser saciados (visto que a vida acabou) e de sentimentos detestáveis que nunca acabam, visto que no inferno não há amor, não há vida, não há paz. O inferno é a condição espiritual de dor, morte e agonia. O inferno é a continuidade da consciência apartada de Deus.
Certamente Deus não criou o homem para a morte eterna, mas para a vida eterna. Quando Deus criou o homem para a vida eterna, por óbvio, pressupõe-se a existência também de uma morte eterna. A morte eterna ocorreu quando se acrescentou ao padrão que nos levaria a vida, o pecado. O pecado alterou o padrão existente e gerou um novo, qual seja: a morte. Se entendermos tal coisa, fica claro que Deus não poderia nos criar como somos de outra forma, senão da maneira que somos. Se não houvesse morte eterna, não haveria vida eterna, o que nos faria concluir que Deus não teria colocado em nós a eternidade e, por conseguinte, não seríamos a humanidade como conhecemos, mas seríamos, no máximo, como os animais irracionais, que nascem com o sentido absoluto de um dia morrerem, sem sequer se darem conta disso. Deus não é arbitrário no seu modo de ser, mas fez todas as coisas com grande coerência, que muitas vezes não podemos entender, mas podemos abstrair da realidade.
E o que gera a morte eterna? A morte eterna é gerada pelo pecado, que é nada mais nada menos do que qualquer coisa que nos afasta de Deus. Deus, possuindo uma natureza, não pode se aproximar do homem se este possui natureza diversa da sua. A natureza de Deus é perfeita, e a isso chamamos de santo. Deus é Santo porque é perfeito, e a perfeição não se une a imperfeição, pois o perfeito deixaria então de ser perfeito. E como Deus não pode mudar sua natureza, que é perfeita, o homem, ao pecar, afasta-se dele, e seu fim é a morte, não apenas física, mas espiritual.
O pecado, por sua vez, corrompeu a natureza do homem de tal forma que o fim do homem espiritual, assim como o carnal, passou a ser, necessariamente, a morte. O homem, a criação de Deus, concebido para a vida eterna, precipitou-se no pecado e na morte eterna, sendo que tais conseqüências são inerentes à natureza de Deus, que é perfeito e imutável. A morte eterna, como contrário da vida eterna, não pode ser extinta por Deus, pois tal coisa não estaria em conformidade com sua natureza, e, conforme visto, isso mudaria tudo o que conhecemos, ou seja, sequer existiríamos como raça humana. Se uma coisa que existe é de uma forma, é porque (provavelmente) não poderia existir de outra forma.
Contudo, Deus amou a humanidade de tal maneira que, sabendo da possibilidade de morte eterna para o homem, planejou o conserto antes mesmo da criação do homem, a única maneira de prover ao homem decaído a vida eterna, e essa maneira foi se fazendo homem, à semelhança do pecado (mas sem pecado).
A morte espiritual entrou no mundo por meio do primeiro homem, que representa toda a espécie humana. A morte passou a ser uma condição humana, um estado padrão que foi determinado como conseqüência pelo pecado. Logo, a conseqüência do pecado, irremediável, era a morte de tudo o que nasceu da carne, a morte do homem, a separação perpétua de Deus. Mas Deus, que não muda, não ignorou, em sua onipotência, a conseqüência do pecado, e se fazendo carne na pessoa de Jesus Cristo, veio cumprir a conseqüência do pecado, que era morrer. Cristo, portanto, nasceu para morrer na condição de homem. Mas por que o próprio Deus, que é perfeito, se fez homem e morreu, sendo que nunca pecou, e sendo que a morte para o homem foi uma conseqüência do pecado? Aqui está a grande maravilha do sacrifício de Cristo.
Pode Deus, fonte da Vida, vir a morrer? Encarnando, e apenas encarnado, Deus pôde morrer, mas na qualidade de Deus, a morte não pôde prevalecer contra o mesmo, visto que ele é a própria vida. Deus não pode ficar separado de si próprio. Por isso, a conseqüência de tal ato, singular no universo, foi que Cristo ressuscitasse, na qualidade de homem glorificado, ou seja, o homem que rompeu o obstáculo da morte e voltou à vida, de forma definitiva, visto que ele é a própria vida. Seu corpo humano agora é o da vida eterna, incorruptível.
Como tal ato pôde consertar nosso estado de morte? Assim como a morte entrou na humanidade por meio de um único homem, assim Deus venceu a morte, por meio de Cristo, humano, sendo que tal vitória sobre a morte vale para toda a humanidade.
De que maneira a morte de Cristo vale para todos os homens? Cristo, morrendo na condição de homem (pois o pecado decretara a morte da humanidade) cumpriu a conseqüência da lei do pecado, que decretou a morte ao homem. Dessa forma, se estivermos ligados a Cristo, que venceu a morte, nenhuma condenação haverá.
E de que maneira o homem, que ainda é um pecador, pode se ligar a Cristo? Isto se dá por meio do Espírito Santo de Deus, que por meio de Cristo, encarnou na forma humana e venceu a morte, conseqüência do pecado, e por isso pode hoje habitar no corpo de morte do homem, o convencendo do pecado e do juízo, e lhe imunizando dos efeitos da morte, visto que é o espírito daquele que venceu a morte (e por extensão, o pecado) na condição humana. A encarnação foi a forma que Deus encontrou, dentro de sua própria natureza, para unir o homem decaído junto dele, santo. Ou seja, todos os pecados passam a ser irrelevantes diante de Deus se o homem der ouvidos à voz do Espírito Santo de Deus, que testemunha acerca de Cristo, permitindo que este Espírito faça morada no homem. Cristo é o caminho para a vida, pois por meio dele, somos perdoados de todos os pecados, perdão este que nos une novamente com Deus. Toda conseqüência do pecado foi sofrida na pessoa de Cristo, que morreu por nós.
O perdão é o maior dos gestos de amor, mas só para quem o faz verdadeiramente com amor, ou seja, só vale para o arrependido. Quando um marido magoa a esposa, a mágoa gera um distanciamento entre o casal, que apenas é resolvido com amor, por meio do perdão, seja expresso em palavras, seja interior, demonstrado com uma atitude nobre e de carinho. O mero pedir perdão, sem amor, implica que não houve arrependimento. Com Deus é da mesma maneira, o pecado nos distancia de Deus, mas o perdão nos une novamente a ele. Sem arrependimento, o Espírito Santo de Deus não pode habitar no homem.
Para o pessimista fatalista, Deus, se admitido, o fez para ir para o inferno. Em sua tolice abissal, ele não compreende que foi feito para a vida eterna, e que mesmo sendo um pecador, tal fato não o condena, pois Cristo venceu a morte por todos os homens. Tudo o que ele precisa fazer é admitir ser pecador e permitir o Espírito Santo fazer morada em sua vida, lhe imunizando da morte que ainda compõe sua natureza e lhe ajudando a vencer as limitações que esta mesma natureza (doravante antiga natureza) decaída, ainda impõe.
Por isso é que, em Cristo, somos mais que vencedores (Romanos 8.37), pois mesmo nascidos da carne, que é mortal e corrupta, as conseqüências desta condição nada mais podem contra aqueles que já nasceram do espírito. Aqueles que nasceram do espírito nascem para a incorruptibilidade, mas quem nasceu apenas da carne não poderá ver o reino de Deus. A nova natureza do homem que nasceu do Espírito Santo de Deus prevalece sobre a antiga natureza. O nascido do espírito venceu a morte.