quinta-feira, 15 de abril de 2010

A Verdadeira Vontade de Deus.



Neste texto resolvi comentar um assunto espinhoso dentro dos escritos bíblicos. Será o bem absoluto, a boa e perfeita vontade de Deus, impraticável em determinadas situações ou contextos?
Sabemos que o homem é pecador, não há exceção. Digo sem exceção porque alguém poderia vir dizer: hoje sou uma nova criatura, não peco mais! Ilusão! Mesmo a nova criatura peca, a diferença é que a nova criatura não é mais escrava do pecado, ela está alforriada, não incidindo mais sobre ela o julgo de morte. Apesar de viver e receber a dádiva de uma nova vida, o indivíduo ainda está sujeito a tropeçar e a caminhar em caminhos errados. Em Eclesiastes 7.19 diz: “Não há homem justo sobre a terra que faça o bem e não peque.” O conceito de justo do professor em Eclesiastes é o absoluto, e não o relativo, que costumamos aplicar.
Mas a questão ainda não se resume a isto. Poderia o homem evitar o próprio pecado causado por culpa de terceiros (sociedade, realidade prática ou exigências da vida)? A resposta, para mim, é negativa. Pior, mesmo o homem não podendo evitar o próprio pecado causado por fatores alheios a sua própria vontade, isso não o isentaria do julgo do pecado. Como humanidade, somos pecadores porque somos parte de Adão, o primeiro homem, alma vivente (1 Coríntios 15.45). Precisamente, não herdamos os pecados de Adão, mas compartilhamos do mesmo mal, como integrantes de um todo (a humanidade). Assim como compartilhamos o julgo da morte em Adão, compartilhamos a vitória sobre a morte em Jesus Cristo. Adão responderá por suas próprias culpas e nós, pelas nossas. Não há como se ter por escusado.
O assunto se torna delicado porque se confunde com a idéia de uma herança maldita, uma herança do pecado. A Bíblia em diversas passagens rechaça essa possibilidade, como na que os discípulos de Jesus perguntam para o mestre sobre a razão do cego ser cego (João 9.1-3). Pecado dos pais, do próprio cego? Jesus diz: nem um nem outro, mas para que se manifestasse sobre ele o poder de Deus. Assim, o assunto merece uma melhor análise, rechaçando a idéia de maldição hereditária, mas sem ignorar os inegáveis efeitos coletivos que o pecado possui sobre indivíduos que nada fizeram.
Vê-se que a sociedade é um organismo, um corpo. Se um membro está doente, todo o corpo sofre. Com o pecado também é assim, o pai peca e certas conseqüências deste pecado são sofridas pelos filhos e pela esposa. Não se trata, nesse caso, de uma herança de pecado, mas de um efeito solidário deste, um efeito que abrange necessariamente mais de uma pessoa. Assim também ocorre com um país, que sofrerá com as conseqüências da decisão errada de seu líder, independentemente do povo ter compactuado com ela.
Não há herança de pecados e nem mesmo de maldição. “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniqüidade do pai, nem o pai, a iniqüidade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a perversidade do perverso cairá sobre este (Ezequiel 18.20)”. Contudo, entendo poder haver solidariedade com pecados, solidariedade com maldições. Qual a diferença? A herança pressupõe uma sucessão, sai o sucedido e entra o sucessor. Como já dito, a Bíblia rechaça completamente essa possibilidade, o filho não herda o pecado do pai, se o pai não padeceu todos os efeitos possíveis do pecado, estes não serão transmitidos para o filho. Mesmo hoje, ninguém herda uma pena de prisão de alguém que não veio a pagar completamente por ela. Se um pai foi condenado a 30 anos de cadeia e não veio a cumprir por um motivo qualquer, não será o filho que pagará. A herança pressupõe, necessariamente, uma sucessão, a assunção da dívida do sucedido pelo sucessor. E nesse sentido, não há assunção de débitos espirituais de nossos antepassados. Nós só responderemos por nossas próprias culpas. Mas enquanto coletividade, nossos pecados podem fazer o mal não apenas para nós mesmos, mas para todos que de alguma forma estão interligados.
Solidariedade significa responsabilidades iguais, indivisíveis, pois vistas como um todo e nunca individualmente, e não cogita culpabilidade. É como o corpo humano, se um membro está doente, diz-se que o indivíduo está doente, pois os membros são partes integrantes do todo e não são vistos separadamente dele. Não faz sentido se pensar em um fígado ou em um coração sem um corpo.
Quando há responsabilidade solidária, pouco importa no corpo quem é o causador do efeito, pois todos são solidários. Num país, se o presidente é corrupto e toma decisões erradas, não faz sentido dizer que só o presidente sofrerá as conseqüências de seus atos. Como líder de uma nação, suas decisões, boas ou más, repercutirão na sociedade como um todo. Se forem más, a sociedade (vista como um todo) sofrerá seus efeitos, independentemente de culpa.
Contudo, há uma extensão dessa solidariedade a proporções pouco analisadas. A questão é a impraticabilidade do bem absoluto em meio a uma sociedade doente. Seria o bem absoluto, a vontade de Deus perfeita, impraticável em certas situações? Aqui reside a problemática do assunto.
Imaginemos uma situação em que um membro do corpo está doente, gerando sofrimento e perigo para o corpo como um todo. E para evitar que esta situação se prolongue indefinidamente ou se agrave, relativiza-se a boa e perfeita vontade de Deus. Significa dizer que, para cessar o sofrimento ou o efeito mortal que o membro doente está gerando, uma atitude extrema e dolorosa deverá ser tomada. Comparo com a perna que precisa ser amputada. Amputar é tirar do todo parte que não é vista fora dele, uma parte necessária, mas que diante das circunstâncias, precisa ser cortada para não comprometer a saúde do todo. Retirar a perna do todo não é algo que possamos chamar de ideal, de perfeito, mas é o “mal necessário”. Por vezes reparei que a vida espiritual nos coloca em situações parecidas.
Um desses casos, onde entendo que houve uma relativização do cumprimento da boa e perfeita vontade de Deus, deu-se com o divórcio. Nos tempos da lei mosaica, o instituto do divórcio foi regulado (Deuteronômio 24.1-4), sendo naquela época admissível. Contudo, mais tarde Cristo explica que o divórcio nunca foi da vontade de Deus, apesar de sua permissão está contida na lei outorgada pelo próprio Deus a Moisés. Cristo então explica que o divórcio foi admitido porque os homens eram duros de coração (Mateus 19.8). Penso que Cristo quis dizer que se não se admitisse o divórcio, outras conseqüências nefastas poderiam recair sobre o homem, piores do que as decorrentes do próprio divórcio, que nunca foi da vontade de Deus. Também revela certo nível de impraticabilidade da vontade de Deus. Se fosse o homem capaz de cumprir de forma plena a sua vontade, não teria o próprio Deus relativizado o seu cumprimento pelo homem. Vê-se que não foi o valor divino que foi relativizado, pois que é absoluto e imutável, mas o seu cumprimento pelo homem. Cristo então declara ao homem qual era a boa e perfeita vontade de Deus sobre o assunto, mas a tolerância de Deus na época da lei de Moisés fez o homem banalizar o casamento e o divórcio.
Outro caso onde entendo que houve relativização do cumprimento da verdadeira vontade de Deus estava nas posturas de guerra que Israel tinha perante seus inimigos. Em guerras, não eram poupados animais, mulheres, crianças ou idosos, sendo todos aniquilados a fio da espada. Tais determinações vinham do próprio Deus, contrastando com a imagem que realmente conhecemos dele: um Deus bondoso, misericordioso e pacífico. Ora, conhecemos que Deus abomina homicídios (Êxodo 20:13 - Não matarás), como Deus então admitia e até determinava a sua prática nas guerras? O cristão deve tomar cuidado para não se embebedar em questões puramente retóricas, que por sua complexidade, podem levá-lo a cegueira espiritual, desviando o homem da busca pelo conhecimento genuíno (que exige humildade), por uma busca desenfreada por respostas satisfatórias ao ego, que por sua vez, afastam-se da verdade.
O sábio professor, em Eclesiastes, dizia: “não sejas demasiado justo, nem exageradamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo? Não sejas demasiado perverso, nem sejas louco; por que morrerias fora do teu tempo?” (Eclesiastes 7.17-18)
Não devemos confiar na nossa própria justiça e nem mesmo sermos tolos ao ponto de nos iludirmos de que somos capazes de possuir a justiça perfeita, bem como a plenitude do conhecimento. Ambos os extremos são perigosos para o homem, porque um leva o homem a arrogância e o outro leva o homem à decadência.
Quando Hitler liderou a Alemanha contra vários países, será que muitos inocentes alemães não sofreram conseqüências danosas? Quando a Alemanha se comprometeu com a guerra, comprometeu todos os seus cidadãos: soldados, mulheres, crianças e idosos. Seria a morte de crianças alemãs o ideal? Certamente não. Contudo, é possível haver guerra sem haver tais atrocidades? Uma guerra em si já é uma atrocidade. Se apenas os vilões (os culpados) resolvessem se digladiar e morressem, ainda assim haveria atrocidade contra o gênero humano. Se em tempos modernos ocorre isso, por que nos tempos antigos essa realidade seria diferente? A Bíblia não é um livro de ficção, e nunca se propôs a ser um. Apesar de nela encontramos parábolas, alegorias e simbologias, ela trata da vida real, do homem real (e imperfeito) e sua relação com Deus (perfeito).
Se a Bíblia fosse um livro de uma realidade idealizada, uma realidade fictícia, nela não haveria guerras. Havendo guerras, ainda seria um livro de ficção se nela os filhos dos soldados mortos crescessem sem ânimo de vingança contra os algozes de seus pais, estabelecendo ainda com tais algozes alianças de paz perpétua. Seria ainda ficção se as crianças que perderam os pais fossem criadas e recebessem cuidados dos algozes de seus pais, tal como o que estes dão aos próprios filhos, e se as crianças órfãs amassem seus novos pais, algozes de seus pais biológicos, como estes. Isso pode até soar bonito, mas não corresponde à realidade do ser humano. Se comparássemos a vida a um vídeo game, seria como o jogador que sem nenhuma experiência de jogo e possuindo um código de invencibilidade, passasse por todos os obstáculos sem se preocupar com nada. Para jogadores de verdade, isso também não é um jogo de verdade. Prefiro comparar a vida a um concerto musical, onde Deus é o maestro, e a humanidade, os músicos. Quem executa propriamente a sinfonia não é o maestro, mas ele a tem sob seu controle, sem privar o desempenho e a qualidade individual dos músicos, permitindo momentos de destaque para um ou outro instrumento e, sem dúvidas, sem exigir de seus músicos aquilo que eles não são capazes de executar. Se ele exigisse, o próprio concerto musical não seria possível. Não haveria música, haveria um pandemônio.
Para o “piedoso” indivíduo que vive numa democracia (um sistema que se desenvolveu modernamente em países de tradição judaico-cristã) é fácil, de seu confortável sofá, bater no peito e taxar Jeová de mau. Mas esse mesmo indivíduo não viveu e não conheceu a realidade de uma guerra. Se tivesse conhecido, clamaria por justiça divina, pedindo a intervenção de Deus como um verdadeiro general disposto a livrá-lo do perigo e do sofrimento, e Deus não o ouviria, e este mesmo indivíduo terminaria por negar a Deus, como igualmente faz em situação completamente oposta. É o que eu chamaria de cinismo espiritual.
Como o povo de Israel perduraria na face da terra até os dias de hoje se no ato de guerrear, ao invés de aniquilar completamente o inimigo (nação como um todo), mantivesse a semente dele ainda viva, criando a possibilidade da semente do inimigo vir a crescer e posteriormente ser causa de uma nova guerra? Como Israel chegaria até os dias presentes se Deus exigisse de seu povo coisas impossíveis de serem realizadas por todos num contexto social interdependente, repleto de relações de causa e efeito? Como Israel compreenderia as determinações de Deus para andar retamente, para guerrear, entre outras, se Deus não utilizasse linguagem compreensível, psicologicamente adequada à realidade, aos medos e aos escrúpulos daquele povo? Os líderes de Israel, contudo, sabiam diferenciar sem maiores problemas o mandamento de Deus que determinava o “não matarás” e as determinações para as guerras, claras exceções em um típico regime de exceção. Ninguém naquela época se fazia de sonso, desentendido ou confuso com as leis. O curioso (e contraditório) é que geralmente os mesmos “piedosos” que condenam tais atitudes no Antigo Testamento são os mesmos que hoje defendem o aborto como recurso de dignidade humana.
Vê-se claramente que embora o valor divino proíba o homicídio, o seu cumprimento foi relativizado pela realidade da época. Em certas situações, o próprio Deus, em sua soberania e sabedoria, impôs ao homem andar por caminhos tortuosos, distantes de sua perfeita e boa vontade, por ser ela impraticável e impossível ao homem naquele determinado contexto. Como seria bom que uma pessoa com câncer pudesse simplesmente curar o órgão afetado, ou ainda amputá-lo e logo em seguida surgisse outro, como uma planta que brota, sem nenhum prejuízo físico, orgânico ou estético. O pecado é o contexto que a humanidade vive, seja o judeu ou o gentio, seja o cristão ou o não cristão. É por isso que a salvação é pela graça, nunca por obras (Efésios 2:8-9). Se fosse por obras (mérito próprio), absolutamente ninguém seria salvo, pois praticar o bem absoluto é impossível ao homem indivíduo, e ainda mais impossível, em proposital pleonasmo hiperbólico, para o homem em conjunto – família, nação, congregação, etc. – visto que numa coletividade, um depende do outro.
Não é inadequado diferenciar tempo da lei e tempo da graça quando se compreende bem o que foram tais tempos. A lei surgiu para preparação do Messias, do povo de onde ele viria e para a revelação da perfeita e boa vontade de Deus (fazendo-nos concluir que a humanidade ainda não estava pronta). Compartilhando do entendimento do escritor C.S.Lewis, a revelação divina, antes de Cristo, estava difusa na humanidade, as religiões eram imperfeitas e incompletas. O Messias viria de um povo, e este povo eleito e preparado foi o judeu, por amor de Deus a Abraão. A religião judaica, diferente das demais, era perfeita, mas ainda incompleta, pois não manifestava a perfeita e boa vontade de Deus claramente. A lei era boa e a verdade estava na lei, mas ela velava a verdadeira vontade de Deus (2 Coríntios 3.15), manifestada apenas posteriormente em Jesus Cristo, que preencheu a “lacuna” existente. Na era cristã, ou tempo da graça, percebemos um nítido amadurecimento espiritual do homem que busca a Deus. A era cristã trouxe também um notável amadurecimento civilizatório ao ser humano. Tudo ocorreu em seu devido tempo.
Outro exemplo, que também entendo como relativização do cumprimento da boa e perfeita vontade de Deus, ocorreu nos relacionamentos não monogâmicos. É clarividente na Bíblia que Deus estabeleceu o relacionamento monogâmico (Genesis 2.24) como o ideal, a sua verdadeira vontade, contudo, o Antigo Testamento é repleto de casos onde o homem possuía mais de uma mulher. Parece que nos tempos de Paulo ainda havia esse costume (1 Timóteo 2.3), recomendando o Apóstolo à igreja que os pastores fossem maridos de uma só mulher. Paulo provavelmente estava disseminando, como novo costume a ser adotado, a boa e perfeita vontade de Deus para o casamento, que é o relacionamento monogâmico. Esse novo costume seria o referencial de prática para todos os cristãos dali em diante, como de fato ocorreu.
Com Cristo, o cristão recebe o Espírito Santo, transformando a sua mente na de Cristo (1 Coríntios 2.16). Na epístola aos Romanos, capítulo 12, versículo 2, o Apóstolo Paulo exorta a igreja: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.”
A transformação não é automática, ela exige renúncia de si mesmo, em santificação constante. O Cristão é chamado à perfeição (Mateus 5.48) e muito embora ela ainda não seja alcançável (penso eu), hoje, com o ministério do Filho do Homem (servo do Senhor) cumprido e o auxílio do Espírito Santo, a humanidade possui maior maturidade e preparo para conhecer a perfeita e boa vontade de Deus do que aquela que vivia sob a égide da lei mosaica ou mesmo sem lei, o que implica também em maior responsabilidade espiritual para os que vivem hoje. Talvez ainda não sejamos capazes de conhecer e cumprir a perfeita, boa e agradável vontade de Deus plenamente, coisa que fatalmente acontecerá na parousia (encontro com Cristo), quando veremos a Cristo como ele nos vê (1 Coríntios 13.12).

sexta-feira, 9 de abril de 2010

A fraqueza do homem e a submissão da mulher.



A idéia bíblica de submissão da mulher, para muitos, não seria aplicável aos dias de hoje. É fato que a mulher alçou na sociedade papéis que antes não possuía, e que o contexto social, em comparação com o tempo em que foram escritas as cartas de Paulo, mudou bastante. Deve ser levado em conta que esse mesmo contexto social foi em grande parte alterado pela má influência da filosofia feminista, que merece comentários à parte.
Tal assunto, contudo, preferi comentar de forma incidental dentro de outro, que é a fraqueza do homem.
Desde os tempos primordiais até os dias de hoje, o papel da mulher na vida de um homem foi decisivo para construção da história da humanidade, e do próprio homem individualmente. Essa relação, entretanto, parece demonstrar certa fragilidade do homem perante a mulher, ao contrário do que se costuma dizer ou afirmar, afinal, o que se diz é que a mulher é o sexo frágil. Eu particularmente não discordo desta afirmação, mas quando o “sexo frágil” resolve medir forças com o “sexo forte”, aquele, estranhamente, por vezes tende a prevalecer.
Grandes apuros sofreram os homens quando se deixaram envolver pelas tramas femininas, por seu poder místico. Analisemos isto pela história sagrada. Estavam Adão e Eva no jardim, e ambos conheciam bem a proibição de não comerem do fruto do conhecimento do bem e do mal. Mas Eva foi enganada pela serpente, ou seja, não agiu dolosamente, mas foi induzida a erro, mesmo que escusável. Já Adão não, provou do fruto oferecido por Eva sem ter sido enganado, agindo dolosamente contra a ordem divina. Se este exemplo soa alegórico e de difícil visualização prática, tomemos outro exemplo: Sansão e Dalila.
Conta o relato Bíblico que Sansão era um homem invencível, uma espécie de Sigurðr (personagem da mitologia nórdica invulnerável a danos físicos), com o adicional de ter uma força descomunal, inimaginável para um ser humano comum. De fato a sua força não era natural, era sobrenatural, e os inimigos de Sansão, por notarem isso, não admitiam que alguém tivesse aquela força como um atributo natural, desconfiando que Sansão possuísse algum segredo, o segredo para a força. Foi ai que entrou a personagem Dalila. O relato bíblico narra que ela insistiu tanto, mas tanto, que Sansão sentiu angústia de morte (Juízes 16. 16) e lhe revelou o segredo, que, por sinal, culminou em sua morte precoce. O homem mais forte de todos os tempos foi vencido por um poder indescritível, um poder que a mulher exerce sobre o homem, e que pode ser usado contra ele.
Outro exemplo trágico foi Davi, o homem segundo o coração de Deus. Por uma mulher, o homem segundo o coração de Deus foi capaz de agir segundo o coração do próprio Diabo (se é que este possui um) e articular um adultério e depois um homicídio (2 Samuel 11). Davi cometeu crimes passíveis de morte e não fosse o Rei conhecedor da teleologia da lei do Senhor, teria sido condenado e este seria o fim de sua história.
Há muitos outros exemplos semelhantes na Bíblia que poderiam ser relatados, mas cabe destacar o de Salomão. O grande sábio e sucessor do trono de Davi foi o que melhor descreveu as agruras que um homem pode padecer nas mãos de uma mulher, pois o próprio padeceu. E não foi por falta de conhecimento ou por falta de exemplos, mas simplesmente porque Salomão se colocou sob os auspícios deste estranho poder feminino. Um poder que pode certamente destruir o homem.
Em Eclesiastes 6.26, Salomão diz – “E eu achei uma coisa mais amarga do que a morte: a mulher cujo coração são redes e laços e cujas mãos são ataduras;
Dessa forma, sempre quando o homem cede a soberania de seu coração a uma mulher, grande queda esse homem está sujeito a levar. Em outras palavras, observa-se que sempre que o homem se tornou submisso a este poder existente na mulher, o seu fracasso foi irremediável. Usando ou não de manipulação, conscientemente ou não, a mulher exerce um poder sobre o homem, um poder que, a meu ver, só pode ser mitigado por uma atitude da própria mulher, tornando-se ela submissa ao seu marido.
A submissão da mulher, portanto, não é decorrente de sua fragilidade, mas de seu poder, que se não controlado, torna o homem amargurado de espírito, impede o seu crescimento e desenvolvimento social e espiritual, e culmina no seu fracasso, no da própria mulher, e no da família como um todo.
E é sobre este poder que o feminismo tem se apoiado e desenvolvido. Se antes a mulher o exercia, na maioria das vezes, inconscientemente, sem dolo de manipulação, hoje a mulher é incentivada a usá-lo de forma consciente contra o homem. Tal poder exerce tal influência na sociedade atual que todo o equilíbrio natural está comprometido. Isso implica dizer que a submissão da mulher ao homem não é mais garantia de uma família estruturada e sadia, pois a estrutura psicossomática do próprio homem moderno (ou pelo menos da maioria) não mais se adéqua a este modelo. O homem moderno é diferente (tal como ilustra a cômica figura), e as chances dele ter sucesso na vida conjugal hoje são mínimas.
Impende ressaltar também que a submissão, nos dias de hoje, inevitavelmente se relativizou. Na verdade, essa relativização da submissão é imperiosa para que a própria vida possa seguir seu curso, pois nem homem nem mulher são mais os mesmos. Quando a mulher adquiriu responsabilidades, o efeito colateral foi que o homem se tornasse irresponsável, forçando a mulher, para ver seus filhos crescerem e se desenvolverem (a despeito dos problemas familiares advindos desta situação), a assumir as obrigações antes típicas dos homens, e neste caso, difícil seria a submissão, pois a mulher estaria se sujeitando a própria destruição e a de sua prole.
Nos tempos de Paulo, a mulher tinha funções distintas do homem, o que não significava desigualdade entre os sexos. As funções eram distintas e harmônicas e davam a forma ideal para a família naquela época. A mulher, em termos civis, era como o adolescente nos dias de hoje, relativamente incapaz. O titular da capacidade de exercício de direitos era o homem e era ele o responsável pela família. Enquanto a responsabilidade da mulher se dava especialmente de forma centrípeta (para dentro de casa), a responsabilidade do homem se dava especialmente de forma centrífuga (para fora de casa) nas relações do organismo familiar, representado pelo homem, com a sociedade. Talvez essa tenha sido uma das razões que motivou o Apóstolo Paulo a proibir que as mulheres falassem nos cultos públicos (1 Coríntios 14. 34,35), pois além de cercear o poder místico exercido pela mulher sobre o homem, estaria conservando a ordem no culto. Como exemplo, imaginemos que um adolescente de dezesseis anos tenha dito algo escandaloso e polêmico em culto público. As conseqüências e pressões sociais recairiam sobre o pai de família, e não tanto sobre o adolescente. Da mesma forma se dava com as mulheres naquele tempo.
É bem evidente que certas recomendações de Paulo só fazem sentido dentro daquele contexto social, tal como o uso do véu na igreja. Os costumes mudam, mas a igreja deve preservar sempre a essência dos mesmos (valor moral contido no costume), que é imutável.
O que seria então esse poder místico exercido pela mulher? Restrito de mais seria, a meu ver, limitá-lo a sensualidade. Há algo mais, algo realmente indescritível. Por essa razão, cabe as famílias cristãs educarem seus filhos homens para serem realmente homens, e suas filhas mulheres para serem realmente mulheres. Creio que o contexto social atual permite (às vezes até exige), sem prejuízo dos valores bíblicos, que a mulher vote, trabalhe para ajudar nas finanças do lar, e tenha participação mais efetiva nos cultos públicos. Contudo, a linha entre o correto e o incorreto passou a ser extremamente tênue, e a conduta tende a se aproximar mais do incorreto à medida que a mulher abandona suas funções típicas para assumir funções atípicas, o mesmo se aplicando aos homens. Dependendo do caso, admite-se que a mulher assuma funções atípicas até certo limite (quando não houver prejuízo para o casamento e para formação dos filhos). Haverá casos, contudo, que mulher ou homem terão que arcar totalmente com funções típicas e atípicas, pois na sociedade moderna, pessoas levam para seus matrimônios os seus problemas crônicos (julgo desigual), que exigem inevitavelmente a adequação dos conceitos. É o caso do pai de família que só bebe e não trabalha. Neste caso, é difícil que não haja algum prejuízo para a estrutura familiar, mas se a idéia de submissão da mulher a este marido não fosse relativizada, o prejuízo seria ainda maior.
A mulher ideal é aquela descrita em Provérbios 31.10 – “Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede o de rubis. O coração do seu marido está nela confiado, e a ela nenhuma fazenda faltará. Ela lhe faz bem e não mal, todos os dias da sua vida.”
Ela até conhece o seu poder, mas não o usa em seu próprio benefício, pois o seu bem é o bem de seu marido. Talvez haja também no homem algum tipo de poder semelhante sobre a mulher, que deve ser mitigado em amor, tal como determinou o apóstolo Paulo: “maridos, amai a vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja (Efésios 5.25).” Cristo é o exemplo, pois detendo toda autoridade, dispôs-se a servir. Quando ambos os sexos renunciam ao seu poder egoístico sobre o outro, surge o equilíbrio ideal para o desenvolvimento familiar.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

A lei e o amor



"A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana. Sem a Bíblia, um livro que teve muita influência em nossa cultura e até em nossa maneira de ser, os seres humanos seriam provavelmente melhores". José Saramago – Escritor, Ateu, Prêmio Nobel de Literatura de 1998.

É comum ouvir dos céticos que o Deus do Antigo Testamento é cruel e o do Novo Testamento, “bonzinho”. Ao passo que o Deus do Antigo Testamento seria severo, duro e até cruel, o Deus do novo Testamento teria mudado bastante seu discurso, por meio de Cristo, anunciando coisas que iam de encontro ao anteriormente pregado pelos profetas do mesmo Deus, contradizendo a idéia de um Deus imutável.
Sustentam-se, na maioria das vezes, em passagens da lei mosaica, outorgada por Deus a Moisés, que determinava, dentre outras coisas, penas de morte por vários crimes, e que isso contrastaria bastante com a ostentada fama de bom moço de Cristo. Contudo, trata-se apenas de uma aparente incoerência, aferível unicamente pelo despeito, incapacidade de leitura séria e desonestidade intelectual dos céticos.
Uma sociedade primitiva como a do tempo de Moisés necessitava de um sistema "jurídico" eficaz que mantivesse vivo, mesmo sob o imperativo da sanção, os valores mais essenciais e vitais de uma sociedade. Nos parâmetros globais, não destoava de nenhuma civilização da época na maneira de fazer justiça, a mentalidade daquela época não estava impregnada de escrúpulos superficiais (piedade aparente) como é hoje, mas nem de perto nem de longe também era uma sociedade madura, mas em amadurecimento. Um amadurecimento que a história do povo judeu é testemunha. No judaísmo encontravam-se todas as bases ético-morais para o surgimento da mensagem cristã.
Leis contra homicídio, leis de guerra, leis sobre adultérios, todas eram extremamente severas, quando não cruéis, julgam os céticos. Esta análise, obviamente, é feita tomando-se como paradigma a sociedade atual, fortemente influenciada pela cultura cristã (cultura do perdão, do arrependimento, de uma nova chance) onde a Constituição Brasileira, por exemplo, proíbe penas cruéis (art. 5º XLVII). Mas uma análise despida de preconceitos e conforme a realidade da época nos revela que a Lei de Moisés não era injusta, apesar de severa. O que pode pagar uma vida? A vida do homicida é capaz de pagar, eficazmente, a vida ou as vidas por ele ceifadas? A análise mais neutra possível nos leva a concluir que a vida somente é paga pela própria vida, por ser um bem indisponível, e por isso a pena para o homicida era equivalente ao seu crime, e a pena era de morte. Ninguém tinha o direito de ceifar a vida de outrem (Êxodo 20:13 - Não Matarás), mas se o fizesse, estaria passível de pagar de maneira minimamente equivalente. A idéia não era compensar uma morte com outra (visto que não compensava), mas impregnar nas mentes o valor ético e moral de que o homicídio era um crime gravíssimo, dignificando a vida humana ao extremo, mesmo que em face de outro ser humano. A regra, em geral, tem a característica de ser abstrata e não se servir a apenas uma pessoa, mas a todos. Não é outra a idéia, mesmo hoje, nas gradações das penas, onde a pena maior qualifica o delito de maior gravidade, bem como o maior valor do bem jurídico tutelado em relação aos crimes de penas menores. Ademais, a equivalência entre a violação do bem jurídico e a pena, mesmo naquela época da lei mosaica, não era cega. Um homicídio culposo (sem a intenção de matar) não era tratado da mesma maneira que um doloso: "Deuteronômio 19.5 - Assim, aquele que entrar com o seu próximo no bosque, para cortar lenha, e, manejando com impulso o machado para cortar a árvore, o ferro saltar do cabo e atingir o seu próximo, e este morrer, o tal se acolherá em uma destas cidades (cidades refúgio) e viverá;”. Numa sociedade como aquela, com uma estrutura jurídica precária, a idéia da cidade refúgio se mostrava em demasiado avançada, uma vez que elidia o risco existente da justiça ser exercida de forma privada.
Outros crimes violavam, contudo, valores equiparados a própria vida por sua gravidade, como no caso do estupro, onde a dignidade da pessoa humana, nesse caso, valia tanto quanto a própria vida: “Deuteronômio 22.25,26 - Porém, se algum homem no campo achar moça desposada, e a forçar, e se deitar com ela, então, morrerá só o homem que se deitou com ela; à moça não farás nada; ela não tem culpa de morte , porque, como o homem que se levanta contra o seu próximo e lhe tira a vida, assim também é este caso.”
Condutas como o adultério, a feitiçaria e sacrifícios humanos eram punidos com a morte por violarem valores equiparados a vida naquela sociedade. Extirpava-se daquela sociedade ainda frágil e primitiva todo o fermento de destruição. O adultério, pois, se tolerado, acabaria com o matrimônio e a família, uma das bases daquela sociedade tribal, o que terminaria por comprometer a própria existência daquele povo; A feitiçaria, pois maculava a outra essencial base daquela sociedade, que era a unidade do povo no culto ao verdadeiro Deus; Os sacrifícios humanos, por sua vez, eram abomináveis, uma vez que o objetivo da lei era impregnar naquela sociedade valores éticos e morais, dentre eles o valor da vida humana, que Deus sempre buscou proteger, e não destruir. Por isso um animal morria em sacrifício pelas transgressões dos homens, símbolo da morte que o erro e o pecado traziam, explícitos no rigor da lei. O sacrifício de animais era o único admitido por Deus, pois simbolizava a gravidade comum a qualquer pecado, que, sendo ou não passível de morte física, possui como última consequência a morte espiritual, a separação perpétua de Deus, que é santo. Demonstrava também o relevo da importância do homem dentre todos os outros seres vivos.
Nem todas as condutas reprováveis eram punidas com a morte, mas embora houvesse outras penas, estava claro que a transgressão estava ligada a morte, fosse pela pena de morte, fosse pela morte de um animal. Um animal, sem defeitos, seria sacrificado pela culpa do homem, simbolizando a morte de Cristo, cordeiro de Deus. A idéia do sacrifício de um cordeiro não era aplacar a ira de Deus, como se costumava ver no paganismo, mas gerar no homem o arrependimento, pois um animal perfeito, simbolizando a pureza e a ausência de culpa, seria “punido” em lugar do homem culpado. Esse é o valor ético contido no sacrifício determinado por Deus. Todo homem deveria refletir no ato de sacrificar o animal pelos seus próprios pecados e ser grato a Deus, que ao invés de punir o homem, prefere perdoá-lo, pois nenhum homem suportaria a justa balança de Deus, o peso de sua mão, diretamente, de forma que desde o início Deus demonstrou ser misericordioso, disposto a perdoar. Mas o perdão exige sacrifício.
Quando se executavam as penas de morte determinadas pela lei, agia-se sob o imperativo desta, e não por vingança e ódio contra os transgressores: "Não te vingarás, nem guardará ira contra os filhos do seu povo, mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. (Levítico 19:18)". Muito embora a lei pudesse vir a aplacar o ódio e o desejo de vingança de alguém, o objetivo principal da lei era estabelecer a ordem conturbada pelo crime e consolidar valores ético-morais na sociedade. A pena de morte para o criminoso, portanto, era uma consequência da violação da lei, e não um fim em si mesma, pois que o fim era justamente proteger a vida. Seguindo o mesmo raciocínio, temos a situação em que um policial se vê obrigado a matar o criminoso para proteção de outras vidas. Nesse caso, o policial agiu no estrito cumprimento do dever legal, que segundo o direito penal contemporâneo, é uma excludente de ilicitude. Dessa forma, nos tempos da lei de Moisés, executar a justiça da lei que determinava a morte de um criminoso não violava o "não matarás", não havendo contradição entre o mandamento e a consequência da violação da lei, pois ambos visavam o mesmo fim, dignificar ao máximo a vida e outros valores igualmente importantes.
Como já dito, a finalidade da morte de um animal não era aplacar a ira de Deus, quanto menos agradá-lo com o cheiro de fumaça, mas levar o homem ao arrependimento: "Oséias 6:4 – Pois misericórdia quero, e não sacrifícios, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos"; “Tem porventura o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, como em que se obedeça a Palavra do Senhor? Eis que o obedecer é melhor que o sacrificar; e atender é melhor que a gordura de carneiros (1 Samuel 15:22)."
Jesus Cristo não veio revogar ou anular a Lei de Moisés, como insinuam os exegetas de araque da Bíblia, que pregam uma versão arrependida de Deus, o "Deus bonzinho". Antes, Cristo disse: "Mateus 5:17,18 - Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas torná-la perfeita. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido.” Deus nunca mudou. Com Cristo, a lei que apontava para a sua figura ganha cumprimento, os sacrifícios de animais não são mais necessários porque simbolizavam o sacrifício do próprio Cristo; o sábado, que simbolizava o descansar em Deus, tem seu sentido cumprido em Cristo, senhor do sábado (vinde a mim cansados e oprimidos), para aqueles que descansam em Cristo; e muitas outras coisas da simbologia judaica que se tornaram inócuas, pois em Cristo ganharam o seu pleno cumprimento, tornando-se nEle também plenas em seu sentido.
A maior prova de que Cristo não veio revogar a lei, mas torná-la perfeita, está no conhecido caso da mulher adúltera (João 8: 1 a 11), que, pela lei, deveria morrer apedrejada. Jesus Cristo não questionou a lei, mas mostrou a sua real finalidade. Pela lei, o homem também deveria morrer (Levítico 20:10), mas só levaram a Cristo a mulher. A lei que deveria ser cumprida com temor era cumprida com hipocrisia e demagogia. Jesus veio mostrar (cumprir) a finalidade da lei, que era mostrar que o pecado leva a morte, não meramente física, mas espiritual, e a missão de Cristo era salvar o pecador. Maior do que a justiça da lei, que não sonda o coração do homem, está a misericórdia para com o pecador que verdadeiramente se arrependeu. Se não houvesse a lei com a pena de morte, aquela mulher jamais poderia chegar ao arrependimento, visto não ter consolidada a consciência do erro, que a lei gera. Aquela mulher que estava à beira da morte, à primeira vista apenas morte física, também foi salva da morte espiritual, esta sim, realmente grave. A lei serviu, portanto, como educação (disciplina) para a consciência.
Se a lei de Moisés serviu para impregnar valores éticos e morais na sociedade e frear a índole má do homem, nossa lei vigente serve como verdadeira chance de arrependimento. Cristo não anulou os preceitos morais criados pela lei mosaica, mas veio mostrar o seu completo sentido. Só necessita se arrepender aquele que transgrediu valores morais estabelecidos e isso só é possível se a pessoa possuir tais valores. A lei servia para consolidar e enraizar nos corações os valores primados por Deus e, consequentemente, o temor ao próprio Deus. Na verdade, mesmo sem a lei, o Apóstolo Paulo constatou a existência destes valores no coração de todo homem, de forma que, mesmo sem a lei, os preceitos de retidão colocados por Deus no coração do homem testificam juntamente com a sua consciência e os seus pensamentos, quer os defendendo, quer os acusando (Romanos 2:15). Portanto, não conhecer o que é reto é algo inescusável. Bom para aqueles que se conscientizaram de que eram transgressores e que podem mudar de vida. Péssimo para a sociedade nos casos em que o transgressor não se arrepende, pois ela terá de conviver com alguém provavelmente disposto a reincidir nos erros, pois o destemor às consequências da lei impede o transgressor de parar, não sendo mais a lei capaz de educar eficazmente. Para muitos criminosos, cometer crimes é ainda compensador, visto que, crendo não terem muito a perder com as conseqüências da lei, vivem com despeito as punições, o que não é fruto necessariamente de um sistema penal brando, mas de um relaxamento da disciplina que impunha os valores éticos e morais plasmados na sociedade pela herança da cultura judaico-cristã. Ademais, muitos valores que eram seriamente tutelados pela Lei de Moisés são hoje desprezados pelas leis vigentes, como o casamento, excluindo-se o adultério não apenas da esfera penal, mas mesmo na esfera exclusivamente moral este já tem se tornado tolerável. Mesmo nas sociedades mais ricas, onde se conseguiu diminuir bastante os índices de criminalidade, os valores exclusivamente morais, segundo a ética-moral judaico-cristã, antes tão valiosos quanto a própria vida, agora estão cada vez mais relativizados. A Lei de Moisés, portanto, não serviu apenas para conter a criminalidade, mas serviu para manter consolidado naquela sociedade os valores éticos e morais necessários e indispensáveis para que Cristo pudesse exercer seu ministério salvífico chamando todos os homens, judeus e gentios, ao arrependimento.
Contrastando com as tolas impressões do escritor português José Saramago acerca dos valores da Bíblia, o escritor russo Fiódor Dostoiévski (irmãos Karamazov), em seu pessimismo, sensatamente asseverou: “Se Deus não existe, tudo é permitido”.
Sem Deus, a forma absoluta do juízo moral não existe.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Oração


Até que idade se admite que uma criança suje suas calças de urina e fezes? Até quando tu serás paciente, pai eterno? Repetidas vezes voltei à estaca zero, e aqui estou novamente. Minhas orações soam pra mim mesmo como ato de insolência, cínicas, embora geralmente não haja qualquer dissimulação em minhas palavras. Nem sou tão tolo a ponto de achar que posso ludibriá-lo e usá-lo, tal como quem usa uma utilidade qualquer. Não há dissimulação em mim, mas é como se houvesse. Aqui, rogo pela sua graça, tão abundante quanto uma fonte eterna. Uma fonte sagrada onde eu constantemente lavo minhas imundícies, com um consciente constrangimento de quem também está profanando algo sagrado. Estou, e me arrependo, mas não consigo parar. Pedro negou a ti três vezes depois de ter te jurado fidelidade até a morte, e após o erro, o arrependimento amargo. De que valeram as juras? E o arrependimento amargo, de que valeu naquela ocasião? Judas se arrependeu amargamente para a própria morte, mas para Pedro tu reservaste a cura. Minhas lágrimas não me comovem mais, como moverão a ti? Em minha pretensão de astúcia imagino como devo ser, mas meus passos me guiam para um sentido que eu não quero ir. Sou como o boi que vai ao matadouro, como a ave que se apressa para o laço e não sabe que ele está ali contra sua vida. Pior que isto é conduzir-se à loucura regido pela sapiência. É uma opressão muito grande! Se a opressão faz endoidecer até o sábio, quanto mais um néscio. Tenho visto grande corrupção, não há ninguém que não possa ser corrompido, o suborno realmente corrompe o coração. Livra-me, portanto, destas fraquezas que me inclinam a aceitar lodo como moeda de troca. Por pouco ou por muito Agripa não se tornou Cristão, por pouco ou por muito um homem conhecerá a segunda morte. Mas tudo isso aprouve a ti. Tenho tantos planos, mas não possuo vigor para tanto. Somente a cura poderá me redimir, algo que não está em mim, está em ti. Se te aprouver que eu seja curado, curado estarei. Somente então terei vigor para lutar e sofrer, perder e ganhar. Foi o que aconteceu com Pedro, que velho foi levado para onde não queria, mas já não havia o que temer. Só tu me conheces, ó Deus, e ninguém mais. Só tu podes me julgar. Seja a tua sentença a salvação, que é melhor que a mera absolvição para quem foi privado de razão. Tua sentença dá a remissão. Dá-me também a cura, não para que não venha a adoecer nunca mais, mas para que esta chaga que me machuca não me atormente mais. Amém.